Clube de Compras Dallas

Film-Toronto Preview

Meses antes de ficar pronto, Clube de Compras Dallas (Dallas Buyers Club) já era bem comentado entre os mais antenados, isso por conta da mudança repentina que Jared Leto passou para interpretar um travesti no cinema. As fotos pipocaram em diversas redes sociais, afinal,  o vocalista do 30 Seconds To Mars emagreceu cerca de 30 quilos para dar vida a Rayon.  E o fato de grande parte da trama ser real, me chamou ainda mais atenção e me fez colocá-lo em primeiro lugar para a minha corrida em ver todos (ou quantos eu conseguir) filmes que foram indicados ao Oscar, que acontecerá no próximo dia 03. Logo de início, somos apresentados a Ron Woodrof (Matthew McConaughey), um eletricista que tem os rodeios como seu hobby. Heterossexual, ele é um super junkie: adora uma boa farra, bebidas alcoólicas em excesso, cigarros, várias carreiras de cocaína e claro, mulheres e sexo sem proteção. E é no meio desse estilo de vida, que Ron descobre que é soropositivo e para piorar: tem cerca de 30 dias de vida. Primeiro ponto a ser levantado, é que desde o início o personagem se mostra totalmente machista e muitas vezes ignorante. É preciso lembrar que estamos em Dallas (Texas), no ano de 1986, que pode ser considerado um dos piores momentos da AIDS. Isso porque, havia pouca informação, a grande massa ainda acreditava que a transmissão acontecia apenas entre homossexuais e a FDA proibia a entrada de vitaminas e outros tipos de medicamentos que poderiam ajudar os portadores da doença de verdade.

No primeiro momento, o homem não acredita no que os médicos dizem e prefere acreditar que foi apenas um erro do hospital. Isso ocorre, porque Woodrof tem a ideia preconceituosa que nunca se relacionou com homens, por isso, não há chances de ter acontecido tal desgraça justamente com ele. Porém, os sintomas o abatem de tal forma, que é inevitável negar aquilo que está constatado não só nos exames, mas também em sua fragilidade física que são expostas em sua magreza excessiva (o ator também emagreceu cerca de 30 kg para carregar o papel) e uma forte tosse, que não passa nunca. Então, Ron se enfia em uma biblioteca para pesquisar tudo sobre o que era aquele vírus e descobriu que os heterossexuais que transavam sem proteção, também estavam vulneráveis a doença. Ao invés de se entregar ao seu destino, ele decide correr contra o sua sentença. Enquanto isso, o hospital da cidade juntamente com representantes da FDA reúnem um grupo de portadores para testar a funcionalidade do AZT. Porém, depois de uma má experiência com o tal medicamento, Ron percebe que aquela talvez não seja a melhor maneira de se tratar, por isso, sai em viagens atrás daquilo que pode fortalecer o seu sistema imunológico e provar para a medicina que pode sim, viver mais que apenas um mês.

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E é no meio dessa trama toda que ele conhece Rayon, um travesti gentil que tenta ajudá-lo em um momento difícil da trama. Isso faz com que Ron mude bastante o seu pensamento sobre os homossexuais, mesmo que ao poucos e de uma forma um tanto branda. É assim que nasce o Clube de Compras Dallas, quando ele começa a trazer as vitaminas não aprovadas pelo governo, para dentro dos EUA e as vende para o grande número de pessoas que carregam o vírus. A informação se espalha e rapidamente ele ganha diversos de clientes, que também não estão satisfeitos com os efeitos colaterais que o AZT traz junto com os “benefícios” sobre o HIV. Porém, com isso, o hospital percebe a sua queda de pacientes e começa uma grande perseguição pelos negócios do nosso bravo caubói.

Em geral, pode parecer um tanto cedo, mas ouso dizer que esse é o melhor filme de 2014. Primeiramente, pela mudança dos atores perante seus personagens. Outro fato interessante, é analisar como Matthew McConaughey tem evoluído a cada trabalho que faz. Em pensar que ele conquistou a fama por protagonizar filmes clichês de comédia romântica, exemplo de Como Perder Um Homem em 10 Dias,  mas de tempos para cá tem aceito papéis cada vez mais desafiadores e fato que reformulou toda a sua carreira. Acho sim, que ele merece – e com louvor-  o Oscar de Melhor Ator em que foi indicado.

E o que falar de Jared Leto? O ator ganhou toda a minha admiração com o papel de Réquiem Para Um Sonho, um dos filmes mais polêmicos e arrebatadores que já vi na vida. A produção que é de 2000, já conseguiu explorar o que o rapaz tinha de melhor ao interpretar um viciado em heroína. 14 anos depois, Leto parece ter aprimorado ainda mais seu talento, não só por ter emagrecido e raspado as sobrancelhas, mas a voz era mais fina e até os trejeitos eram bem femininos. Um verdadeiro travesti com diversos problemas com a família, drogas e principalmente, o vírus da AIDS.

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Por fim, outra atuação que vale a pena ser lembrada é de Jennifer Garner, também muito conhecida por filmes fofinhos e que envolvam comédia(lembram de De Repente 30?). Ela dá vida a séria dr. Eve Saks, que dá grande apoio para seus pacientes na luta contra a FDA, arriscando seu próprio diploma e licença médica. Uma das cenas mais bonitas do filme, com certeza, é a metáfora do quadro que ela ganha de Ron. Ao tentar pendurá-lo na parede, a doutora acaba martelando a superfície que fica com alguns buracos, porém, ao colocar o quadro de uma flor bonita por cima, é como se fosse um disfarce. Algo bem ligado aos efeitos que o AZT proporciona para aqueles que o ingerem, afinal, a droga faz grandes estragos no organismo, mas tem a ilusão de tratamento legal pelo governo. Aliás, Jean-Marc Vallée trabalha bastante com representações simbológicas, algo bonito de se admirar. Terminei o filme e fico na dúvida se vou ter o mesmo sentimento por algum outro roteiro depois desse.

No blog, maravilhoso diga-se de passagem, Outra Página, eles fizeram um post com 10 curiosidades sobre o longa e a história real de Ron Woodrof muito interessante, vale o clique.

O filme estreia por aqui no dia 21 de fevereiro, fique ligado.

Azul É A Cor Mais Quente, sim!

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A história de amor de Kechiche chama atenção da crítica e coleciona más e boas opiniões

Qual foi o grande problema de Azul É A Cor Mais Quente (La Vie  D’Adéle)? A expectativa! Aliás, esse é o que atrapalha muitas produções, não só no mundo cinematográfico. As pessoas depositam tanta confiança em algo, que quando chega o grande momento de conferir, julgam aquilo como ruim. Dezembro foi um mês conturbado, por isso, quando soube da estreia aqui no Brasil, tentei me abster de qualquer tipo de informação mais aprofundada sobre o longa, porque sabia que não conseguiria ver por aqueles dias. Ou seja, não li nenhuma resenha, nem comentários e não discuti com muitas pessoas sobre o assunto. Porque eu gosto de me guardar e ser surpreendida por aquilo que eu não sei, não conheço. Mas claro, foi impossível me livrar de comentários infames do tipo “é uma droga, três horas e só putaria”, “gastei meu dinheiro para ver duas sapas adolescentes transando”. Porém, consigo descartar totalmente esse tipo de comentário chulo e sem nenhum embasamento. Vejam bem, as pessoas tem total liberdade para odiar ou amar determinadas coisas, mas antes de falar que é “apenas sexo”, por exemplo, é importante ter argumentos para validar o que aquilo despertou em você.

Sem delongas, só tenho a agradecer as pessoas que me desmotivaram a ver esse filme no começo. Sou do tipo que, muitas vezes, nem lê a sinopse do filme, para não criar esperanças e se surpreender, para o mal o para o bem, como já comentei no começo. E isso foi o que tornou a história ainda mais especial, porque fui ao cinema sem esperar nada, apenas pelo prazer cinéfilo. Afinal, uma película tão comentada, deveria ter algo de bom para me mostrar. E então, me deparo com um roteiro lindo, com interpretações ótimas e muito reais, uma sensibilidade sem igual.

Não é atoa que Azul levou a Palma de Ouro em Cannes e quatro prêmios no Lumière Prix 2013 nas categorias: melhor filme, melhor realizador (Abdellatif Kechiche), melhor atriz (Léa Seydoux) e revelação feminina do ano (Adèle Exarchopoulos). É visível que cada detalhe fez muita diferença para que o enredo pudesse ser amarrado, como por exemplo, a Adèle comer com a boca aberta no começo do filme, demonstrando o quanto ela ainda era adolescente.

O início é muito sensível, quando ela começa a se descobrir. Mostra a real confusão de uma jovem que não entende bem os seus sentimentos. É importante ressaltar que Kechiche não traz apenas a questão da sexualidade, mas também as dúvidas sobre o que ela irá fazer depois que acabar a escola e como sua vida pode ser limitada. Adèle sai com alguns garotos, apesar de parecer não dar muita atenção para o lado sentimental ainda, mas quando cruza com Emma ao atravessar a rua, as certezas da garota de apenas 15 anos passam a se bagunçar. Os pequenos detalhes, fazem com que a história fique cada vez mais real, pois o diretor faz questão de retratar como é a primeira vez em um bar gay e também como os amigos do colégio podem se voltar contra os gays. Foi bárbaro como ele não se aprofundou nessa quesito de aceitação dos outros e sim, da própria personagem. Uma das minhas cenas favoritas, é quando Adèle volta da casa de Emma e a sua família prepara uma festa de aniversário surpresa para ela. Sim, é quando ela dança livremente I Follow Rivers, da cantora sueca Lykke Li, porque sabe, dentro dela, que se encontrou.

Diferente de muitas pessoas com quem conversei e até mesmo o que pipocou na internet, as cenas de sexo foram muito delicadas. O que causou adversidade ao público foi a falta de hábito em ver algo mais real, principalmente, entre mulheres. Sem contar que, a cena é longa, cerca de 7 minutos, com closes e tudo mais. É algo que não estamos acostumados a ver no cinema? Sim, é! Mas não deixa de ser realista, sem dizer que apesar de ser um ato mais hard, foram cenas muito bonitas, delicadas e bem feitas. E é por isso mesmo que deve aplaudi-las de pé, porque gravar cenas assim e tão reais, deve ter sido bem difícil. Quando veio ao Brasil para promover o filme, Adéle Exarchopoulos disse em entrevista ao Adoro Cinema que se divertiu muito durante essas cenas, em especial. (Você pode ver a entrevista inteira aqui).

É interessante ver como em diversas fases da história, o azul é evidenciado na película. Não tanto quanto na HQ que deu a origem ao filme e leva o mesmo nome (você pode comprá-la na Saraiva).

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As três horas da trama foram, sim, necessárias. E essa é uma das características do cinema francês, pois eles gostam de mostrar como verdadeiramente as atividades cotidianas acontecem. Um bom exemplo disso, é o filme Amour (2012), que conta sobre como um casal de idosos tem de lidar com a proximidade da morte. Uma ótima indicação para quem ainda não está habituado a esse estilo de narrativa mais lenta. Portanto, esses foram os 179 minutos menos cansativos, que dediquei ao cinema, da minha vida. E o final, não poderia me decepcionar. Isso é cinema europeu, minha gente. Nunca poderia acabar como um filme comercial/americano. Um aviso: você não está diante de Imagine Eu & Você, é uma história de amor real, linda e verdadeira.

Queria apenas abrir um parenteses:  estou tão apaixonada, que amo até os seus catarros, Adèle! ♥