Sobre coisas afáveis

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Encontre alguém que troque livros com você. A todo o momento. Que ame-os tanto quanto você os ama. Não, ainda sou incrédula quando o assunto é “os opostos se atraem”.

Porque a parte do compartilhar e conversar sobre coisas que ao mesmo tempo que diferentes, se completam, é o ponto alto de um relacionamento. Aprender com o outro sobre algo que para você, até então, era totalmente desconhecido, é afável demais para não se admirar.

Depois de um tempo, nessa troca de biografias, romances, quadrinhos e até, quem sabe, terrores sem fim, fica fácil superar seja qual for a crise, obstáculo ou empecilho. Tudo já foi visto nas linhas, distribuído nos pontos.

E é por isso, que volta e meia, ela ia e voltava com a sacola nos braços. Tão pesada que lhe fazia calos. Cheia de livros, abraços e risadas.

Eu não te reconheço mais

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Nós vivemos momentos felizes, vivemos. Uma porção deles. E mesmo com a maior das calculadoras, seria impossível contabilizá-los nesse momento. A cada dia, parecia que uma nova sensação era descoberta, você poderia ser nomeada como a Imperadora, a rainha dessa terra até então, nunca avistada.

Era feito uma combinação perfeita, a terra e o ar, a segurança e a bagunça em uma só nota musical. Algumas vezes com melodias diferentes, mas que no balanço que ia de lá pra cá, fazia tudo se ajeitar. Você era como o meu sonho de algodão doce. Todos os dias, com a mesma essência, o mesmo perfume. Em seu colo, sempre tão macio, era onde eu encontrava o melhor abrigo para me refugiar de todo o mal que habitavam fora dos braços que ficavam ao redor do meu corpo.

Mas teve um dia, foi como um click de botão, como um pestanejar dos cílios ou aquele sussurro que a gente é obrigado a engolir quando algo nos sufoca, tudo aconteceu. Quando eu olhava dentro dos seus olhos, deitada ao seu lado, já não era a mesma pessoa que comigo se aventurou há tempos atrás. E uma chuva de palavras, gritos e água escorreram pelo meu ser, o que me fez te perder na multidão de uma confusão que ainda agora, não sei como se criou.

Teria ela passado pelo mesmo tratamento que Kruczynski se submeteu? E o pior, será que eu mesma me perdi nessa intervenção científica incógnita? Olhando de longe, eu não consigo te enxergar. A visão ficou turva, só o que se vê são pontos azuis e uma porção de mágoas que sou obrigada a carregar para cima e para baixo. Olhando daqui, assim tão distante, eu não te reconheço mais. E no fim das contas, acho mesmo que te varri do meu interior. Mas o vazio, a dúvida e a falta ainda insistem em perturbar essa caminhada.

“Meu amor, por favor, me re-conheça…”

ELE

Você já teve a impressão que conhecia alguém? Como se fosse um déjà vu, porém esses insights normalmente acontecem em lugares ou até situações. Tem-se a impressão de já ter visto, vivido ou falado determinado acontecimento. Quando se tem a sensação de reconhecer alguém, não é quando se acha uma pessoa muito parecido com outra qualquer, não é isso. É quando você realmente a conhece. Viveram juntos, mas em outras dimensões.

Eu conhecia tudo: o jeito com que ele mexia na barba, o cruzar dos braços, a maneira como segurava o copo de cerveja e até a forma que pendia o corpo para o lado, quando de um modo admirador, observava a moça cantar. Mesmo que a meia luz, aquela silhueta era tão familiar para mim, que eu poderia dizer que já o conheço de outros tempos, já convivi.

Mas ele? Não me viu. Estava com os óculos – modelo aviador – pendurado na camiseta e não pode me enxergar. Tão próxima.

Voltamos para casa. Cada um para a sua. Achando tudo muito desconhecido. Não, você não é meu déjà vu. Você é meu. Há de ser.

Que isso fique entre nós…


Há exatamente um ano atrás, eu coloquei o melhor vestido que eu tinha (sim, aquele preto de renda) e ainda pela manhã eu já estava ansiosa para chegar o fim do dia e te encontrar. E no meio do caminho me lembrei da primeira vez em que nos vimos, você me levou pra uma cidade linda, com casinhas que pareciam ser feitas para bonecas. E o dia ficou mais bonito depois que eu pude ver o seu bigode manchado com meu batom rosa. Amava todas as vezes em que você preparava uma trilha sonora pra gente, e sim, The Doors (Light My Fire) e The Beatles estavam incluídos em todas elas.
Fizemos planos, dissemos que escreveríamos um livro juntos! Eu te admirava, principalmente quando você desenhava à mão livre e logo depois vinha com a maquininha que fazia tanto barulho e muito gente chorar, apenas para marcar a pele de mais um cliente. E eu sei que você me admirava também, apesar de seu jeito sério e tímido, sempre soltava algum elogio entre um sussurro e outro.
Teve um dia em que você me repreendeu por desperdiçar sal em uma mesa de um bar qualquer que a gente frequentava, me contando o porque aquele nutriente tinha aquele nome (porque vinha de “salário”), logo depois me contou o porque havia uma planta no meio do caminho de volta para o metrô que tinha duas folhinhas, tão grudadas. Sim, um monte de lendas, que saídas da sua boca, me encantavam.
Mas voltemos aquele dia, há um ano atrás… Quando você de novo preparou uma trilha sonora, para quando eu chegasse ao seu espaço. Me deu um beijo rápido e tímido, um presente escolhido à dedo, ajudou a construir o desenho que marcaria um dos meus pés, marcaria também essa fase, que foi tão gostosa e que eu aprendi tanto.
Comprou um bolo, preparou uma festinha surpresa e me fez sorrir com os olhos, com a alma, com a boca e com o espírito!
Não te culpo por nada do que aconteceu após esse dia, é a vida, e ás vezes ela é bandida. Te agradeço por ter me dado dias lindos, lembranças que nunca irão sair de mim e por ter me ensinado à crescer, ser madura, ser mulher.

Our Deal

Quando a gente se encontra tem um beijo no rosto e um abraço apertado. Logo, olhares tímidos que se encontram e desencontram, enquanto a gente conversa.
Depois da janta e de mais um de seus tragos, vem o olhar firme, o carinho nos cabelos, aos poucos você me ganha. Mas tudo deve acontecer assim, como se ninguém soubesse de nada. Não é um escondido, é simplesmente um natural, que eu aprendi a respeitar do teu modo.
No começo me tomava o ar e fazia doer meu coração, mas o seu, ensinou o meu a entrar nessa dança. Hoje  eles dançam juntos, sem pressa, sem ofegâncias. Pelo menos é o que o meu coração fantasia, mas deixa assim.

Abraços são feitos de coisas que esvoaçam por aí. E eu ainda fico brava de lembrar daquela noite em que meu dedo sangrou e você fez com que o fluxo cessasse. 
Ás vezes você me observava e me encarava, muitas outras, você mal conseguia parar a retina um só momento nos meus olhos. 
Eu tentei beber, pra ficar realmente bêbada, mas novamente as suas mãos acariciaram o meu cabelo a noite inteira e nesse momento eu não consigo me lembrar mais de quando eu chorei escondida embaixo do edredom, porque agora eu tenho você aqui bem perto, comigo.

"Hey, você está aí?"


É necessário colocar a intensidade que temos em outras coisas, não no amor. O amor é intenso por si só e se adicionarmos mais uma dose dessa tal intensidade, vira idiotice, acefalia.
Sou imperativa. Enquanto eu escrevo, dou risada, ouço música, tomo café, fumo cigarro. E você? Nunca conseguiu me acompanhar, nunca.
Todo esse auto-retrato parece ser muito clichê, pois bem, meu amigo, sou amante do clichê, ele muitas vezes pode ser surpreso, de tão automático.
O clichê beira ao clássico e clássico é sinônimo de elegância. Posso sim ser uma mulher elegante, mesmo com unhas pintadas com um esmalte ruído, com os cabelos presos em um coque e o lápis preto um pouco borrado, escorrido.
O mais interessante nisso tudo, é que mesmo depois de cair, desmoronar, tenho fé. E que isso não seja algo religioso, e nem quero que seja, mas algo que vem de dentro. Algo nosso. Tenho fé e essa força de que as coisas podem melhorar. Com o tempo, mesmo que com pouca idade, aprendi a me reerguer. Acho que esse é um dos maiores orgulhos de uma mulher que se julga pós-moderna.
Não rastejar nos pés de ninguém e não precisar de nenhum apoio. Não estou aqui ditando o meu narcizismo, pois nem o tenho, afinal, muita coisa já me desmoronou, mas no fim de tudo, eles me rendem bons textos.
Estou à procura de novas inspirações, em momento de reinventar. E dizer pra mim mesma “Hey, você está aí?!”.
Dizem que no fundo do poço tem molas, para quando você chegar lá embaixo, ser arremessado para o topo do mundo. Acredite tudo tem um por quê e o lado bom sempre existe!

Cúmplice

Em tempos de Facebook, é fácil ter amigo, afinal, a ferramenta lembra o aniversário deles e denuncia por meio de posts que o próprio amigo faz, quando ele está triste e precisando de alguém. E é ali que você os classifica: amigos do trabalho, amigos de infância, amigos da facul, entre outras mil listas que o Facebook te obriga a criar. A questão aqui na verdade, não é o Facebook, na verdade ele só foi mencionado, para que eu possa ilustrar a banalidade com que se encontra amigos nos dias de hoje. Difícil mesmo é encontrar irmãos. Em um mundo onde a ganância e inveja falam mais alto do que qualquer outro sentimento, encontrar alguém que se possa confiar, é praticamente impossível. Mas quando isso acontece, ele te enxerga de longe, a ponto de você entrar em uma sala e a pessoa acenar e sorrir para que você se sente perto dela. E é então que os dias passam e aquela pessoa que a primeira vista seria só mais uma lá na tua lista do Facebook, se mostra companheira e fiel. E daqui a algum tempo, não interessa o quanto, ela vai saber com uma troca de olhartes o que você quer dizer, sente quando você está triste e precisa dela, termina não só as suas falas, mas também seus raciocínios. 

E chega um dia que a gente erra. Erra? Claro, somos humanos e erramos. Ás vezes aquele é o erro mais proibido, sem perdão. Mas aí esse amigo, esse irmão, te olha com toda a calma do mundo e você que está sem chão, é perdoado e entendido. E agora vou te dar um conselho, querido leitor, se você encontrou esse irmão, grude nele e não deixe ele fugir nunca.
Eu já tenho a minha e posso dizer que me sinto segura de ter você por perto, mesmo que de longe, tanto é que sei que eu posso te ligar ás 04:00hrs da manhã e você ainda vai ter paciência e um conselho amigo pra me dar, me confortar.


Te dedico, Laís Marcelle Araújo.