Emicida e Rael lançam álbum em parceria com rappers portugueses

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Língua Franca. Língua verdadeira. Língua partilhada. Língua dividida. Língua herdada. Língua legada. Língua viva. Língua futura. Língua presente. “Língua Franca” é Brasil e Portugal, é Emicida e Rael, Valete e Capicua. “Língua Franca” é rap. E muito mais.

O rapper de São Paulo Emicida tem sido um dos mais ativos construtores de pontes entre as realidades urbanas dos dois lados do Atlântico. Em Portugal, realizou vários concertos poderosos, recrutando aliados a cada novo palco que pisava. O hip hop, o rap, a língua provaram ser cordões umbilicais capazes de ligar duas culturas distintas, dois países longínquos unidos e desunidos pela história, dois sabores singulares que se sente no ouvido. Daí à “Língua Franca” foi um passo.

No microfone: Emicida e Rael, do lado de cá; Valete e Capicua, do lado de lá. E, no estúdio, uma equipe de luxo, com Fred Ferreira – mais conhecido no Brasil por integrar a Banda do Mar -, além de Kassim e Nave, elementos-chave de uma importante modernidade brasileira, cúmplices neste plano transatlântico de destravar a língua, produtores que arquitetaram os ritmos que parecem unir tudo– sentidos e sensibilidades, experiências e paisagens.

Fred Ferreira trabalhou em São Paulo com Kassim e Nave desenhando uma paisagem sonora de grooves modernos, fluídos, tropicais e atlânticos, com funk e batidas gordas, capazes de elasticamente suportarem qualquer salto da língua. E depois, juntos em Lisboa, Valete e Emicida, Rael e Capicua trocaram ideias e sotaques, palavras que são só de cá ou de lá, amassos e pixinguinhas, fado da Carminho e saia rodada, como se rima em “Ideal”.

Faz pleno sentido: rappers e DJs há muito cruzam o Atlântico em ambas as direções, carregando nos ombros uma linguagem universal que não reconhece diferenças, mas estimula semelhanças e alianças. Emicida pisando palcos em Lisboa, Capicua falando nos morros do Rio de Janeiro, Valete e Rael descobrindo que a internet carrega palavras mais facilmente do que o vento e que tudo faz sentido nos ouvidos das duas margens do oceano.

Emicida e Rael são dois mestres do rap nacional, ambos oriundos da cena paulista. Emicida ergueu o nome nas ruas, em rodas de improviso, e lançou trabalhos aplaudidos pela crítica, incluindo o fantástico Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, de 2015; Já Rael começou por se impor como parte do Pentágono antes de se lançar para uma vibrante carreira solo que no ano passado acolheu mais um importante trabalho, Coisas do Meu Imaginário. Do lado de lá, Capicua e Valete são expoentes da cena hip hop portuguesa: cruzaram-se em “Medusa”, tema de abertura do projeto com o mesmo título que Capicua lançou em 2015, o terceiro numa discografia oficial (há um passado de mixtapes) que já se expandiu em 2016 com Mão Verde, disco feito com Pedro Geraldes e pensado para um público ainda mais jovem. Valete, por outro lado, se apresesentado de norte a sul do país enquanto prepara o seu futuro: as suas rimas incisivas fazem parte da história do rap em Portugal que não se pode contar sem paradas demoradas em Educação Visual e Serviço Público.

O single de apresentação de Língua Franca é “Ela” – como “Ella”, como “Fela” – um atmosférico filme de palavras, com drama e ação, rimas honestas de palavras funestas, com os quatro MCs trocando ideias e rimas como se o Terreiro do Paço fosse ali mesmo, ao fundo da Avenida Paulista, como se o Corcovado estivesse do lado de lá da Ponte, olhando Lisboa a partir de Almada.

Não é só entre o Brasil e Portugal que esta “Língua Franca” elimina distâncias. É também entre o norte e o sul, entre África e o mundo, entre homens e mulheres, entre brancos e negros. Tudo se encontra na procura de um terreno comum, de um sentir comum, num álbum que quer repensar a história para reinventar o presente e o futuro. Em “AFROdite”, a cantora portuguesa com ascendência cabo-verdiana Sara Tavares junta-se à festa e evoca-se a África do nosso código genético comum.

Língua Franca é isso tudo: amizades e oceanos, continentes e palavras comunicantes, balanços universais. Tudo na nossa língua, essa que só diz verdades, que é franca, que não custa nada, que todos conhecemos. Que todos falamos. Que todos podemos cantar.

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