Noite de Reencontro com Ellen Oléria

Nos dias 28 e 29 de Julho, Ellen Oléria se apresentou no Itaú Cultural para o lançamento do seu novo disco: Afrofuturista.

Toda de preto. Uma blusa brilhante e uma saia de tule. Ellen subiu no palco do Itaú Cultural de forma arrebatadora. Com uma presença incrível, ela soltou a sua voz com “A Nave” primeira música que ecoou em nossos ouvidos, seguindo pelos seus outros sucessos como “Mandala” e “Santana”. Dona de um sorriso deslumbrante, Ellen conquistou todos que ali estavam, principalmente à mim, que já acompanhava a carreira musical, mas que nunca tinha tido a oportunidade de comparecer aos shows.

Ellen Oléria_ItaúCultural_foto1 Ivson MirandaA noite rendeu. Tivemos a presença da ilustre da Roberta Estrela D’alva, que dividiu o palco com Ellen no cover “Miss Celies Blues” e com a sua música de trabalho “Rap Contra a Maioridade Penal”. Além disso, ainda fomos contemplados com um outro cover magnífico da musica “Feeling Good”, da Nina Simone. Terminamos com grandes sucessos da cantora, inclusive a música “Testando”. Mas para a Equipe do Não Me Poupe, só o show não foi o suficiente. Entramos em contato com a queridíssima Ellen e ela topou uma entrevista com a gente. Bora conferir?

Não Me Poupe: O que você pode nos contar sobre o seu novo disco?

Ellen Oléria: Em “Afrofuturista” estou imersa em dois vetores: rotas e raízes. Ser afrofuturista é uma maneira de construir e remontar identidades de maneira ficcional ou poética, potencializando reais. O afrofuturismo é um discurso, uma linguagem, uma estética, um lugar ou um devir que atualiza as heranças afrodiaspóricas num encontro com as tecnologias de produção e reprodutibilidade do saber no mundo contemporâneo. Eu, me identificando com essa corrente de pensamento, me percebo como uma afrofuturista, ou seja, visito minhas ancestralidades e as atualizo em meu tempo e espaço utilizando as tecnologias que tenho acesso. Fundamentalmente falando do conceito mais revolucionário que conheci: o amor.

NMP: Quais são as mudanças que você percebeu, musicalmente falando, entre o seu primeiro disco e o último?
EO: Minha intenção foi trazer no afrofuturista mais plasticidade. Meu som sempre foi mais orgânico e acústico. Agora, uma coleção de camadas de sintetizadores, pedais e efeitos trazem uma sonoridade mais difusa. Também experimentei o repertório em palco antes de levar pro estúdio. Isso trouxe outra relação com as faixas. Mas o afrofuturista é um híbrido. É para além de um disco, um espetáculo pensado a partir da canção mas também a partir do figurino, da iluminação, da performance, dos timbres e de um conceito mais abrangente que minha relação com o gosto. Acho que já vinha nesse caminho no disco “Ellen Oléria” mas o “Afrofuturista” trouxe mais fortes esses desejos.

Estou mais velha também. Então, um pouco mais de maturidade, da experiência nos outros projetos me deixaram mais segura pra viver a minha imersão nesse projeto. Tô muito feliz de ter tido essa oportunidade. O “Peça” e o “Ellen Oléria” me ensinaram um bocado. Agora aprendo um pouco mais no “Afrofuturista.”

Ellen Oléria_ItaúCultural_foto4 Ivson Miranda

NMP: E para a Ellen, pessoalmente falando? O que mudou?

EO: Tudo muda o tempo todo, num é mesmo? Mudei de cidade, mudei de cabelo, mudei de peso, mudei de objetivo, mudei de clima. Mudei de humor (nem sei o quanto! rs). Virei apresentadora de um programa na TV Brasil, o Estação Plural. Mudei minha postura. Mudei minha perspectiva. Mudei de leitura. Espero ter mudado o bastante pra conseguir perceber que cresci. Num dá mais tempo de ser aquela outra Ellen que fui.

NMP: É um grande passo se assumir homossexual, principalmente para um público que sabe exatamente o que é sofrer esse preconceito. Como foi quebrar essa barreira do silêncio?

EO: “Então é melhor falar, lembrando que esperavam que não sobrevivêssemos” (Audre Lorde). Muitas gritaram pra eu pudesse viver a experiência do meu amor com liberdade. E eu quero mesmo aproveitar essa dádiva. Por causa dessa rede, pra mim foi natural. Nunca chamei de “assumir” porque não acho que pra mim tenha essa carga de crime ou culpa. Eu professei, eu me declarei rs. E foi mágico quando ela me amou de volta.

NMP: Em março você estreou no programa “Estação Plural”, da Tv Brasil. Como está sendo essa experiência?

EO: Pela primeira vez na TV brasileira temos um programa apresentado por um grupo tão diverso. Tenho aprendido a cada dia. É desafiador, e eu cada dia mais somo minha voz ao coro que defende a comunicação não pública.

O Estação Plural é um programa de opinião. Imagina: compartilhar o ponto de vista de uma artista que vive de sua música em tempos que imperam os gritos midiáticos que anunciam crise em todos os setores. Eu posso olhar o mundo enquanto uma mulher negra e narrar minhas memórias, minhas identidades contra-hegemônicas e minha ancestralidade gloriosa. E meu desejo é que minha trajetória possa multiplicar as possibilidades de futuro que nossa comunidade vislumbra.
A TV tem uma linguagem muito diferente da que trabalhei com maior afinco nos últimos anos. A música se tornou meu lugar de conforto. E sei que a geração da desobediência civil, que lutou contra a censura conquistando a liberdade de fala, deixou também pra nós, essa nossa geração, o desafio de eleger o que falar em todos esses espaços conquistados. Apesar dessa responsabilidade que me chega a partir dessa cadeira que ocupo, tenho me dedicado pra usá-la com responsabilidade e alegria.

Ellen Oléria_ItaúCultural_foto2 Ivson MirandaTodas as fotos foram cedidas pelo Itaú Cultural e clicadas pelo Ivson Miranda

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