Laboratório Fantasma comemora 7º aniversário na Audio

IMG_20160604_014129285.jpgHá 7 anos atrás, um grupo de amigos se juntou tornar um sonho em realidade: fazer rap e viver de música. Assim, nasceu o Laboratório Fantasma e o Não Me Poupe foi conferir essa festa e conta tudo pra você.

Em 2009, ainda com o nome de Na Humilde Crew, formou-se um coletivo para espalhar o rap independente. Ou seja, um grupo de amigos se juntou para gravar suas músicas e fazer o trabalho braçal mesmo: vender camisetas artesanais pro pessoal no boca a boca (naquela época a internet não era tão funcional como é hoje). Hoje em dia é uma grande empresa, responsável por gravar e produzir o som de grandes nomes do rap nacional. Tudo começou com a mixtape de Pra Quem Já Mordeu Um Cachorro por Comida, Até Que Eu Cheguei Longe, do seu idealizador Emicida, e hoje coleciona diversos títulos.

A festa aconteceu em uma das casas de show que eu mais gosto atualmente, que é a Audio Club, que fica ali na Francisco Matarazzo na Barra Funda. Um lugar maravilhoso, onde é possível enxergar a apresentação de qualquer lugar, bem arejado, extremamente grande, tem diversos ambientes, enfim, só pontos positivos.

Cheguei no local um pouco depois das 23h, e o rapper Coruja BC1, um dos convidados já estava no palco.  Admito que eu não conhecia bem o trabalho da cara, mas curti bastante. Apesar de ter presenciado só 25% de sua apresentação, ele já me conquistou com a seguinte rima:  “O rap é o gigante que tava acordado ontem, hoje e vai estar acordado amanhã. E não o que acordou para passar maquiagem e postar foto no Instagram. O rap é o gigante que tava acordado ontem, hoje e está na pista. E não o que acordou para bater panela na Paulista.”.

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Um ponto muito positivo dessa noite é que houve uma grande organização entre os músicos, o que evitou aqueles longos intervalos entre um show e outro. Assim não ficou cansativo e o público pode aproveitar da melhor forma, além de contar com a ajuda da Discopédia, a melhor festa de rap e hip hop de São Paulo. Em seguida pudemos conferir o incrível Rico Dalasam. Já falei desse moço no canal e não canso de dizer o quanto ele é incrível. Mas não posso deixar de reproduzir o que ele citou nessa noite tão especial: “Não dá pra mudar o mundo, mas dá pra mudar as pessoas. Se tem um close que eu quero dar é o de mudar as pessoas”, disse Dalasam.

Sem demora, foi a vez de curtir Drik Barbosa. Conheci o som dela com o projeto Rimas & Melodias, que junta diversas minas do rap e do neo-soul. Dentro da música Mandume também é possível conferir a essência do som da Drik, que é feminista, ativista do movimento negro e faz questão de transmitir isso para as suas letras. Outro assunto bem presente no trabalho dela é o amor, como vemos em Sem Clichê, novo single da cantora.

O último (mas não menos importante) rapper a ter seu show separadamente, foi o Kamau. Em apenas 30 minutos de apresentação conseguiu levantar a galera e foi um ótimo esquenta para tudo aquilo que viria dali pra frente. Finalizou com a música Pretinha, uma versão bem envolvente de Pretin, da Flora Matos. Nessa letra, ele descreve como conquistou a mulher dos seus sonhos. Em seguida, deu um recado certeiro para todos os manos ali presentes: “mas saiba chegar, muito respeito a todas as mulheres. Nenhuma mulher merece ser estuprada”, bradou Kamau.

Então, por volta de 01h40 da manhã, o grande dono da festa subiu ao palco. Leandro Roque de Oliveira, mais conhecido como Emicida. Já abriu a celebração com Bang e entre uma melodia e outra, agradeceu ao público pela presença e admitiu que provavelmente soltaria algumas lágrimas ao longo da noite. Em seguida, recebeu o funkeiro Mc Guime para acompanha-lo em Gueto e País do Futebol, canção que ofereceu para as minas do futebol feminino, que apesar de baterem um bolão, não recebem o merecimento da mídia e do público. As alfinetadas não pararam por aí, logo após Mãe, uma das músicas mais emocionantes de seu último disco Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa, o rapper fez questão de se pronunciar sobre o caso da jovem estuprada por mais de 30 homens, no último mês, na cidade do Rio de Janeiro. “É urgente que a gente tenha compaixão, não só com as minas que a gente conhece, como com todas as minas”, falou o rapper. Emicida relatou que naquela semana, um jornalista o questionou qual era seu sentimento, como pai de uma menina, diante desse absurdo. E a resposta dele foi bem clara: “Eu não tenho que pensar como pai. Eu não tenho que transferir a dor da mina para alguém da minha família. Eu tenho que me colocar no lugar da mina. Não é errado aquilo acontecer com uma mina da minha família, é errado acontecer com qualquer mina, tá ligado? O Brasil é foda, mano, a gente comemora os progressos, mas o progresso várias vezes vem de mão dada com a tragédia. Essa porra era pra parar o país, mano. Se a gente não se atentar pra isso, não vai valer de nada, progresso nenhum”.

Outro que marcou presença nessa comemoração, foi o paulistano Rashid. Que levantou todo mundo com Gratidão e Homem do Mundo. A festa seguiu com Hoje Cedo, e com o mais novo single Madagascar, que teve seu clipe lançado no dia 1º de junho e já conta com quase 500.000 mil visualizações no Youtube.

Chegou a vez de Fióti, que acaba de lançar seu Gente Bonita, com um som totalmente reformulado e uma nova fase do cantor. No entanto, já é conhecido na cena e anda ao lado de Emicida desde o início do Laboratório. O rapaz chegou tímido com um terno bem alinhado, puxou uma cadeira e cantou Obrigada, Darcy e Gente Bonita com a ajuda de um violão.

A festa seguiu com Baiana e foi com Chapa que Emicida trouxe a presença do cantor Seu Jorge. Juntos fizeram uma bonita versão de Preciso Me Encontrar, do Cartola, que seguiu com Boa Esperança, letra forte e com grande crítica ao racismo e Mufete que conta sobre sua viagem pela África. Apesar de falar tão bem dessa noite memorável, me sinto na obrigação de apontar um erro também. Como feminista, como mulher. Após tantas mensagens sociais, reforçando a ideia de respeito e dando voz às minorias, a música Amiga da Minha Mulher ,de Seu Jorge, incomodou não só a mim, mas como a várias minas que até então, eram representadas naquela festa. No entanto, eu prefiro pensar que Emicida não teve nada a ver com isso, que foi apenas uma escolha infeliz do repertório e que as pessoas que estavam envolvidas com o trabalho do Laboratório Fantasma de forma alguma concordam com o preceito contido nessa letra.

Um dos momentos mais aguardados da noite, com certeza, foi a música Mandume, que reuniu um time de peso no palco. Drik Barbosa, Rico Dalasam, Muzzike, Amiri e Raphao Alaafin somaram no palco de braços cruzados repetindo o refrão, como um mantra: “Eles querem que alguém que vem de onde nóiz vem, seja mais humilde, baixa a cabeça. Nunca revide, finge que esquece a coisa toda. Eu quero é que eles se foda!”. Mas o espetáculo continuou, e músicas antigas não ficaram de fora, como Zica, Vai Lá, Triunfo, Noiz e Outras Palavras. Essa última com ajuda de Rael, que também cantou seu hit Envolvidão e dividiu Levanta e Anda com o mediador da noite. Quase no finalzinho, o público puxou um coro forte e belo: “Axé pra quem é de axé, pra chegar bem vilão. Independente da sua fé, música é nossa religião”, refrão da música Ubuntu Fristili.

O encerramento chegou com um chamado para Seu Jorge retornar ao palco e finalizar com Felicidade, a palavra que define o sentimento de quem pôde comparecer a essa celebração. Tenho o prazer de dizer que acompanho o trabalho do Emicida desde a Rinha dos MCs e que esse foi o show mais bonito que eu já presenciei durante sua carreira. Me fez entender claramente o porque o Lab leva o conceito de Confúcio, um filósofo chinês, como lema de sua existência: “Escolha um trabalho que você ama e não terá que trabalhar um dia na vida”.

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