O Papel de Parede Amarelo #mulheresparaler

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O mês das mulheres desse ano foi repleto de conscientização. Pelo menos dentro de um pequeno recorte da internet. Foi lindo abrir a aba de inscrições no Youtube e ver que tantas mulheres haviam preparado conteúdos que trouxessem a verdadeira importância desse dia diante da sociedade. Resumindo: não queremos rosas, queremos respeito e direitos igualitários.

E foi então que vi pipocar os vídeos de book haul e resenhas com o livro “O Papel de Parede Amarelo”, de Charlotte Perkins Gilman. Nessa nova edição da editora José Olimpio, vemos logo na capa: um clássico da literatura feminista. Isso logo me encheu os olhos e fui atrás da obra. O livro é composto por apenas 112, pois trata-se de um conto escrito em primeira pessoa em forma de diário.

Tudo começa quando a protagonista da história vai passar o verão em uma casa diferente com sua família. Seu marido é um médico renomado e após observar o comportamento de sua esposa, a diagnosticou com “depressão nervosa temporária”. Sendo assim, a mulher é estimulada a deixar o trabalho e é confinada no quarto do andar de cima da casa. E é justamente nesse cômodo que se encontra o tal papel de parede amarelo que tanto atormenta e de alguma forma fascina a mulher central dessa trama.

Apesar de se tratar de uma ficcão, esse texto transporta o leitor para a mais pura realidade. É preciso lembrar que somos levados para 1891, quando a mulher não tinha direito algum dentro do corpo social. Sendo assim, a protagonista passa a questionar a própria sanidade mental, mesmo discordando de vários comportamentos machistas que seu amado tem. Tudo isso é relatado secretamente em seu diário, onde ela só escreve quando o esposo não está em casa, pois o mesmo não gosta que ela escreva. Esse é apenas um dos motivos para fazê-la se sentir culpada, mesmo sofrendo abusos psicológicos diariamente.

O modo como a personagem principal é tratada, contribui para que ela se sinta dessa forma. Silenciada diversas vezes, o abusador usa o argumento que é um médico, portanto ele sabe de todas as coisas. Além disso, em vários momentos se refere a ela como “tontinha”. E tem o poder de jogar insultos, juntamente com falas de amor, uma das armas mais usadas entre os adeptos a esse estilo de abuso.

“É  tão difícil falar com o John acerca do meu caso, porque ele é uma pessoa tão sensata e gosta tanto de mim.”

O modo como a depressão é tratada dentro da narrativa também é totalmente desprezível. Porém, não muito diferente de como muitas pessoas, hoje em dia, tratam outras que são acometidas por essa doença que não é só mental, mas física também: com descaso e indiferença. Normalmente com aquele discurso de que “só depende de você melhorar”.

“Disse-me que apenas eu me posso ajudar a mim mesma a sair deste estado, que devo usar a minha força de vontade e auto-controle e não permitir que fantasias patetas me dominem.”

O personagem “papel de parede”, na verdade, é uma metáfora. Uma válvula de escape que ela encontra para depositar toda a culpa dos seus problemas, porque na verdade não tem voz dentro de casa. Nem do casamento. Muito menos na sociedade. Essa ideia fica ainda mais evidente quando a personagem passa a enxergar mulheres que se rastejam através do material que cobre a sua parede. O papel é feio, misterioso, tem uma cor estranha e ainda por cima, um odor lascinante. Consegue pensar em outro objeto/ser que o patriarcado identifica tais características?

O mais triste disso tudo, é ver como essa situação ainda se repete nos dias de hoje, mesmo tendo passado mais de um século. No entanto, é esse tipo de literatura que abre os olhos de milhares de mulheres que são chamadas de “loucas” pelos seus companheiros e já vêem isso como algo comum e cotidiano, sem perceber a humilhação que enfrentam.

 

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